Uma carta sobre o amor
Outro dia eu compartilhei uma postagem nos stories do Instagram que tinha apenas a intenção de ser uma mensagem bonita e otimista sobre o amor: uma foto de um casal feliz e, ao lado, uma conhecida frase atribuída ao poeta brasileiro Mário Quintana que diz: "O amor só é lindo quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser."
Foi um compartilhamento despretencioso, mas que resultou em algumas respostas sobre uma das interpretações que essa ideia pode ter por quem lê.
Sabemos que algumas frases podem fazer mais sentido se forem lidas levando em conta o contexto da época em que foram escritas ou, ainda, do texto todo em que ela foi aplicada, mas, visto que a ideia de alguém nos transformar através do amor foi objeto de várias reflexões (como, por exemplo, idealizar um amor irreal, criar expectativas demais e até sobre a importância da terapia para que não se acabe vivendo num relacionamento abusivo ou frustrado), vou colocar em palavras a minha "defesa" para a ideia, que mesmo nos dias de hoje faz sentido pra mim - e continua sendo linda.
(Antes de discorrer sobre, deixo claro que de maneira nenhuma eu discordo dos benefícios da terapia ou da revisão do pensamento pelos olhos de quem leu e me respondeu. Todo questionamento é válido quando nos leva a pensar e discutir ideias. Logo no primeiro contra-argumento que recebi, comecei a refletir sobre o porquê de eu ter achado que fazia sentido pra mim, coisa que antes não tinha passado pela minha cabeça. Mas vamos aos pontos:)
"...quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser." Aparentemente, o problema, aos olhos de alguns, surge ao ler a conjugação do verbo "transformar", pois ela coloca uma responsabilidade, que deveria ser de cada um, em outra pessoa, além de gerar uma expectativa altíssima: "quero encontrar alguém que me transforme". Mas o que é a transformação se não um movimento natural do ser humano quando em contato com pessoas? Nós nos transformamos desde o momento em que nascemos até o dia em que deixamos de existir, e não é papo de coach dizer que ficamos parecidos com as pessoas com que convivemos: é um fato.
O problema, neste caso, é quando há a falta de identidade por quem procura esse alguém "transformador". Sabemos que é natural que a gente admire uma pessoa antes de surgir uma paixão, mas é perigoso admirar o outro quando não admiramos a nós mesmos: ao invés de uma transformação vinda a partir do vínculo construído, temos a perda da identidade, onde o indivíduo passa a viver a vida do outro e se esquece de quem é.
Nesse sentido, a consciência do indivíduo é essencial para entendermos que não precisamos nos transformar em uma pessoa mais legal, mais inteligente ou mais-qualquer-coisa por nos acharmos insuficientes para o outro, e o autoconhecimento é papel fundamental para essa compreensão. Apenas quando reconhecemos a nossa individualidade com todos os seus limites, medos e ambições podemos buscar encontrar e nos conectar com pessoas que tenham objetivos e valores em comum, que é algo importante para manter relacionamentos saudáveis.
No sentido da construção dos vínculos, "alguém que nos transforme no melhor que podemos ser" pode ser alguém que me transforme em uma namorada, esposa, mãe, sem tirar de mim aquilo que eu já sou. Assim como um homem solteiro pode se transformar em um namorado romântico que faz uma surpresa para seu par e pode, com o tempo, se transformar em um pai de família, por exemplo. Essa visão é diferente de pensar que eu vou encontrar alguém para que eu deixe de ser quem eu sou e passe a ser como ele quiser que eu seja.
Além disso, toda pessoa que entra nas nossas vidas pode nos ensinar se estivermos dispostos a aprender (e o contrário também vale). E aprender nos transforma. Nesse sentido, se você tem um parceiro que entende de física e astronomia, ou um amigo que é mais velho, ou convive com alguém que já viveu como voluntário na África, ou, ainda, se você é essa pessoa na vida de alguém (em qualquer relacionamento que você esteja), você pode trocar conhecimentos. E se essa troca não faz de você uma pessoa melhor, então talvez haja um problema na maneira de se relacionar.
Trocas são valiosas e fazem parte do amor. E o amor, sendo parte da convivência em um relacionamento saudável, vai fazer parte da nossa jornada. Se nessa jornada nos transformamos, é porque estamos aprendendo com tudo e todos a nossa volta. Assim como vimos fazendo desde o nosso nascimento.
O amor está nos amigos, na família e nos parceiros. Cada um tem o seu amor dentro de si e compartilha com os outros da maneira que sabe - ou consegue. Algumas pessoas nos dão amores confusos, outras nos dão amores lindos. Pensar que só é amor se for lindo é uma ilusão. Saber que, mesmo sendo falhos, carregamos amor dentro de nós e que podemos aprender a fazê-lo cada vez melhor - para nós e para os outros, é possível e é lindo. ♥
[Nota: Em pesquisa no Google, não há evidências de que a frase é realmente do Mário Quintana; Pelo contrário, uma das fontes diz que esta é erroneamente atribuída a ele. https://www.pensador.com/frase/MTk0OTM1/ ]
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