Resenha: O Xangô de Baker Street


" - ... O doutor Watson e eu fazemos questão de observar esta necropsia. Afinal, oito olhos enxergam melhor do que quatro.

- Oito não, sete.

- Como assim?

- O Saraiva é cego de um olho - [...]

- Não sabia que o senhor era um herói de guerra - disse Holmes, comovidamente. - Foi numa luta corpo a corpo? 

- Não, uma infecção. Cocei o olho com a mão suja - explicou, sem pudor, o médico-legista."


"O  Xangô de Baker Street" foi um livro que eu peguei numa troca muito bem sucedida que fiz com um bazar beneficente da minha cidade. Eu já conhecia por título e me lembro muito bem de, há muitos anos, assistir ao Programa do Jô e vê-lo divulgando o livro (nesta mesma edição que hoje eu tenho), e hoje posso dizer que esta é, sem dúvidas, a obra mais divertida que eu já li! 

A história se passa na cidade do Rio de Janeiro em 1886. A francesa Sara Bernhardt - a atriz mais famosa do mundo - está no Brasil para uma série de apresentações e, ao se encontrar com o imperador Dom Pedro II, este lhe revela que houve um roubo: um violino Stradivarius, que dera de presente à baronesa Maria Luiza, foi roubado e não há pistas. Sarah então sugere ao imperador que chame o detetive Sherlock Holmes e seu ajudante, doutor Watson, para investigarem o crime. 

Enquanto isso, o delegado Mello Pimenta começa a investigar o primeiro do que virá a ser uma série de assassinatos, e terá a ajuda da dupla inglesa para seguir o rastro do primeiro serial killer da história.

A história é simplesmente genial: Jô Soares criou um universo em que Sherlock Holmes e Watson, personagens fictícios, não apenas convivem com personalidades reais da época como também protagonizam episódios e diálogos divertidíssimos graças ao choque cultural que naturalmente aconteceria. Uma cena como a que Watson cria a caipirinha apenas para evitar que Holmes tenha alguma reação com a cachaça pura só poderia ter sido criada por um gênio.

Uma leitura leve e divertida que, mesmo com o contraste das narrações dos assassinatos, fica marcada pela inteligência do roteiro e surpreende com um final nada clichê e super provável de se acontecer. Elementar, meu caro...

Recomendo! 

Sobre a edição: Companhia das Letras, 1996. 350 páginas em papel pólen bold. Fonte em tamanho médio. 

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